'É preciso aprender a fazer política pública'
Como garantir uma participação efetiva da sociedade civil na vida democrática do país? Mais do que uma pergunta retórica, essa provocação foi o ponto de partida do debate realizado na noite desta quinta-feira, 15 de maio, no teatro do Sesc Vila Mariana. O evento marcou oficialmente o início do “Fórum Nossa São Paulo – Propostas para uma cidade justa e sustentável”, promovido pelo Movimento Nossa São Paulo. Criado há um ano, o movimento reúne diversas entidades da sociedade civil, com objetivo de discutir e apresentar soluções para os principais problemas da cidade.
A roda de conversa “Sociedade Civil e Democracia Participativa” foi mediada por Oded Grajew e teve a participação do escritor e religioso dominicano Frei Betto; do fisólofo e professor da PUC-SP Mário Sérgio Cortella; de Cláudio Lembro, vice-governador de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin; da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik; de Cida Bento, especialista em igualdade racial e coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e da Desigualdade (CEERT); e do representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Eduardo Ferreira. Na platéia, políticos, urbanistas, representantes de ONGs e pessoas da sociedade civil interessadas no tema, entre eles muitos jovens.
“Vejo um único grande problema, que está por trás de todos os outros na cidade de São Paulo: as pessoas não conseguem conceber o espaço público”, iniciou Raquel Rolnik, ao ser questionada sobre as três principais dificuldades que impedem a participação dos cidadãos nas decisões políticas da cidade. “Nossa cidade foi construída sob a ideologia da propriedade privada. Não conseguimos lidar com a idéia do espaço público. Isso é extremamente prejudicial”, opinou.
‘Alimentando carros’
Para Frei Betto, é preciso rever as prioridades das políticas públicas. “Temos, paradoxalmente, o mesmo número de carros e de pessoas que passam fome no mundo. São aproximadamente 600 milhões de um e 650 milhões de outro. E nós estamos mais preocupados em descobrir como iremos alimentar os carros do que as pessoas”, criticou.
O ex-vice-governador Cláudio Lembro acredita que o sistema político representativo está esgotado e que é preciso encontrar alternativas, inclusive em experiências de outros países, para garantir a participação da sociedade nas decisões. Na opinião de Cida Bento, da CEERT, a população deveria se valer dos instrumentos legais para cobrar dos governos que cumpram seu dever. “Temos de aprender a usar o sistema Judiciário e o Ministério Público, se for preciso, para fazer valer o que o governo assumiu como compromisso”, defendeu.
O filósofo Mário Sérgio Cortella usou a metáfora do copo d’água para provocar a reflexão nos participantes. “Vejam que a água se conforma ao formato do copo. O que nós devemos fazer é transbordar o copo, para romper com o que está pré-estabelecido”, disse. Cortella explicou que a origem da palavra feliz está ligada à idéia de fertilidade. “Temos de aprender a construir uma cidade fértil e combater a esterilidade. É assim que teremos uma feliz cidade, só para aproveitar a boa coincidência dessas palavras, na língua portuguesa”.
Os participantes da roda de conversa também abordaram o tema da corrupção, como um fator de entrave no desenvolvimento da cidade. “Quando fui secretário de Educação, na prefeitura de São Paulo, conseguia aumentar a verba em pelo menos 30%, apenas evitando desvios”, contou Cortella. “É preciso haver maior controle público dos gastos”, completou. Ele também deu um recado aos empresários que mantêm relações ilícitas com os governantes: “Parem de corromper! Se vocês deixarem de dar o dinheiro, não haverá mais a corrupção”.
‘Bandeiras e bonés’
O representante do movimento dos catadores, Eduardo Ferreira, manifestou sua indignação com a pouca visibilidade do grupo o qual representa, apesar da importância desse trabalho na limpeza da cidade, na promoção da reciclagem e na movimentação financeira a partir do que poderia virar lixo. “Os aterros estão cada vez mais cheios e os catadores ainda fazem um trabalho isolado, sem apoio do poder público”, reclamou.
Contundente, Frei Betto provocou aplausos da platéia ao opinar sobre assuntos polêmicos. “Vocês sabem por que a elite brasileira não vai à porta do Palácio do Planalto fazer manifestação, com bandeiras e bonés? Porque ela tem a chave do Palácio”, disse. “Essa elite chega com seus projetos de lei prontos para entregar aos políticos que, ou por incompetência, ou por não terem uma boa assessoria, ou simplesmente para manter a situação como está, levam esses projetos prontos para votação”, atacou Frei Betto. “Se é assim que a coisa funciona, então temos nós também que aprender a escrever projetos de lei e a fazer política pública”. O Fórum Nossa São Paulo foi realizado até o dia 18 de maio e, ao final, apresentou um documento com propostas para uma cidade mais justa e sustentável.
Escrito por Adriana Reis às 16h34
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